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Brasileiro não consumirá só por propaganda, diz pesquisa

Os apelos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para manter o nível de consumo frente à crise financeira global devem ser pouco eficazes sem outras medidas de política fiscal e monetária, apontam representantes do comércio. Para associações e economistas, a população vai olhar para o próprio bolso e para a perspectiva de emprego antes de se deixar influenciar pelo clima natalino e as propagandas do governo, que deveria cortar juros e reduzir impostos.

 

Com o slogan "O mundo aprendeu a respeitar o Brasil, e o Brasil confia nos brasileiros", o governo veiculará a partir do próximo dia 10 uma campanha publicitária para estimular as compras. O argumento é de que a retração no consumo, por causa da insegurança, pode realmente agravar os efeitos da crise no País, inclusive afetando o nível de emprego. Nesta semana, além do anúncio da propaganda, o presidente Lula disse que o brasileiro corre o risco de perder o emprego, caso não consuma. "Não comprando, o comércio não encomenda para a indústria, a indústria não produz, e não produzindo, não tem emprego", disse Lula, na última terça.


O professor de economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Antonio Corrêa de Lacerda, concorda que há risco de um "efeito cascata" por causa da crise de confiança, mas uma campanha pelo consumo não é suficiente para conter isso. "Se o consumidor parar de comprar, as indústrias param de produzir, não precisam mais de trabalhadores e o desemprego aumenta. (A campanha) passa confiança de que o governo acredita na economia do País, mas só isso não basta", apontou.

 

"As medidas tomadas pelo governo até agora têm sido parcialmente corretas, porque o fundamental ainda não houve, que é redução da taxa de juros. (Os juros) ainda são muito elevados e isso reduz o consumo. O governo pode acelerar seus investimentos para ativar a economia e incentivar o setor privado a também investir", explicou Lacerda.

 

Dados divulgados pelo Banco Central nesta semana mostram que a taxa de juros para financiamento de automóveis em outubro foi a maior desde abril de 2006. Para o cheque especial, a taxa de juros apurada pelo BC chegou a 170,8% ao ano, a mais alta desde junho de 2003.

 

Na visão do economista da Associação Comercial de São Paulo Marcel Solimeo, falta objetividade na iniciativa do governo. "O consumidor vai consumir conforme tiver mais ofertas e redução do custo de financiamento. Houve desaceleração no consumo, à medida que aumentaram os custos dos produtos importados via câmbio e dos (produtos) financiados via taxa de juros. Frente a isso não há apelo que faça o consumo aumentar", afirmou.

 

Para Altamiro Carvalho, economista da Fecomercio-SP, esta seria a hora de o governo atuar com medidas mais amplas. "Todo estímulo da manutenção da atividade e evitar a crise é interessante, mas isso não se faz com intenções e campanhas, nem com políticas pontuais, como a liberação do compulsório e de crédito para determinadas áreas", apontou. Uma reforma fiscal e a redução dos juros seriam as medidas mais eficazes para combater os efeitos da crise no comércio de final de ano, na avaliação do economista.

 

Segundo estimativa da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, a carga tributária deve chegar a 35,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2008.

 

"É o momento de o governo sinalizar que está determinado a manter o ritmo de crescimento, e isso se faz através da articulação de política fiscal e monetária. Não adianta aumentar liqüidez e subir taxa de juros. São medidas contraditórias", explicou Carvalho.

 

"Quando o consumidor verifica os juros dá um passo atrás. Para as empresas o crédito desapareceu. Isso faz com que elas diminuam suas atividades, dêem férias. Com este horizonte pessimista, a pessoa se retrai, preferindo pagar as dividas com o 13º em detrimento das compras de natal", disse José Ronoel Piccin, presidente do conselho administrativo da Associaçao Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac).


Um levantamento divulgado nesta quinta pela Fecomercio-SP mostrou que o paulistano vai usar o 13º salário para pagar dívidas e para a poupança. De acordo com a pesquisa, 38% dos entrevistados pretendem quitar as dívidas e a mesma porcentagem, poupar. Outros 22% dos trabalhadores investirão em compras de Natal.


Segundo Piccin, a pressão do governo deveria se voltar para os bancos, no sentido de disponibilizar mais crédito, e não sobre o consumidor. Outra opção seria o governo aumentar seus investimentos. "Seria melhor intensificar isso do que soltar uma campanha publicitária. O governo consegue gastar um dinheiro que iria circular e seria muito mais viável", afirmou o consultor.

 

Segundo o economista da associação comercial paulista, a propaganda do governo pode ter o efeito contrário. "Algumas pessoas podem até fazer uma leitura diferente: se o governo está fazendo apelo é porque a coisa está grave. E acho que não está. Enquanto ele tiver tranqüilidade com relação ao emprego, vai consumir normalmente. Seria muito mais efetivo reduzir o IOF (Imposto sobre operações financeiras). O bolso do consumidor é mais sensível", alertou Solimeo.

Terra
01/12/2008 03:00h
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